quarta-feira, 23 de março de 2011

Com os pés na cabeça





Acordei com os pés pensando.
Não ria.
Inevitavelmente os pés pensam.
E tem memória.
De areias e ladeiras, asfaltos e degraus.
Caminhos d’água, granitos em saltos altos,
e altos saltos em "grand jeté".
Carregam entre os dedos passos de uma dança de luau.
Cansaços no calcanhar.
Algum sangue de uma concha partida numa praia de tombo.
Alguma tatuagem de infância.
Êta cicatriz feliz.
Descuidos de quem se distrai no horizonte.
A memória dos pés passa pelos caminhos.
Os meus, acordaram pensando nos roteiros de antes,
soldadinhos de chumbo marchando em tua calçada,
em desvios nas manobras de pedras,
descobrindo atalhos para chegar.
Acordaram com saudade de quando se postavam ao teu portão
ou se escondiam em tua caixa de correspondência.
Acordaram sufocados nos sapatos da saudade que cresceu maior.
Acordaram pensando nos caminhos de antes,
quando sabiam onde descansar,
e anteviam os teus pés chegando para serem par.
Meus pés acordaram com frio.

Ou "Com os pés na cabeça"

(Suzana)

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