quinta-feira, 31 de março de 2011

Mandala






Foi quando tua mão tomou a minha e avançamos na trilha da entrega do olhar.
E me deixei levar por uma vertigem de fendas azuis, e tudo se fez azul, o desejo era azul, o beijo azul da tua boca na minha boca como uma mandala girando lentamente nos desnudando em revelações
E a tua essência humana circulou com energia e doce força adormecendo serpentes e despertando dragões.
E a minha essência humana amanheceu purpurinamente pelo avesso.
Foi quando tua mão gravou na minha o samsara do incansável recomeço.

(Suzana)





terça-feira, 29 de março de 2011

Ausência


 

Escrevo atenta a tua ausência.
Conto os dias como quem conta conchas.

Vou separando cascalhos e perfilando estrelas.
Minha palavra é artesã secreta camuflada na emoção.
Um coral vermelho pende silencioso no coração.
Escrevo atenta a tua ausência.
Conto os desejos como quem conta um rio.
Nascente, curso, mar bravio.
Meu verso é marinheiro forte.
Conto a saudade como quem revela o norte.
Rotas, desvios, parceis, vazios.
Escrevo atenta a tua ausência.

(Suzana)

Vídeo - Cais



domingo, 27 de março de 2011

...



Sabedoria judaica




Distinguem-se quatro tipos de temperamento: o de quem é fácil de provocar e fácil de pacificar - esse ganha o que perde; o de quem é difícil de provocar e difícil  de pacificar - esse perde o que ganha; o de quem é fácil de pacificar - esse é um santo; o de quem é fácil de provocar e difícil de pacificar - esse é um perverso.

"Pirkei Avot 5,14"- Talmude **** Decifrando essa Cabala:

1) ele acha o caminho de volta; ao perder-se, tem recursos para tratar o imprevisto e retornar ao seu estado original, por isso ganha o que havia perdido.

2) ele perde o caminho de volta; por julgar-se invulnerável, como se nada o tirasse do centro de si, por isso perde o que pensou que tinha.

3)esse recusa qualquer caminho que o tire de seu estado de paz.

4)esse não tem caminho.

(suzana)

Boa companhia

 
 

Invento em mim Veneza
E o veneziano gondoleiro me corteja
Eu discretamente contraceno e devolvo a ele o meu olhar pequeno
Ensaio um riso e me desordeno
Encabulada apresso o passo
E dessa cena me desembaraço
De uma janela salta um violino malabar que num mortal se exibe em alegria
Corro aos pés da ponte a esperar um arpejo gracioso dessa acrobacia
Descubro que viver a fantasia é fabular a vida com alquimia
Brincar consigo
Usar magia
E ser pra si boa companhia
Ou “Companhia de si”
(Suzana)

O portador de jóias



A vida se revela jóia no colo de miúdos ais.
Recorro então aos retratos do “tempo dos cristais”.
Espalho pela mesa lembranças temporãs como quem quebra a casca contando as pedras da romã.
Pérolas rosadas, rubis da infância, um cordão de juvenis corais.
Vestida de tardes percebo aflita bordados com vidrilhos do jamais.
Procuro nas túnicas das noites topázios sensuais, braceletes cravados de beijos, colares em miçangas matinais.
Ametistas de silencio pousam em anéis sem par.
 Águas marinhas passadas, turmalinas lapidadas do desamar.
Encontro em mim turquesas do recomeçar.
Brilhantes safiras.
Eternas gemas do reamar.

Ou...”O portador de jóias”
(Suzana)

Abaixo o diet



Rompe um elo da corrente e a caminhada se interrompe. Não vamos inventar tristezas: todo dia acaba alguma coisa e outra surge em seu lugar. Se bem que a saudade te cumprimenta e senta na soleira do coração, enrola um fumo de corda e dedilha a viola da solidão. Fica sempre um pouco do se foi que não impede o que vai chegar. Há sempre alguém partindo sem tirar os pés do chão e que de fato só anda na contramão. Há sempre alguém te amando (e lá no fundo você leva a sério?) Há sempre alguém apontando o abismo e a escuridão (eterna torcida que delira na oposição). Não vamos inventar tristezas: todo dia acaba alguma coisa e outra surge em seu lugar. E não adianta descascar a noite antecipando o dia. Nem comer o miolo dos gestos sem abrir a mão.
É preciso raspar o tacho e reinventar a fome de ser feliz!
Ou: Abaixo o diet!
(Suzana)

Cartilha





Você tem que ter muita graça
Saber a dança
Sacar o perfil
Ficar por um fio
Calibrar o passo
 Você tem que marcar a carta
Preparar o lance
Não perder a chance
Ou você rasga essa cartilha
Muda pra uma ilha
E vira pescador

(Suzana)


Curumim


Coração que estende os pulsos de olhos fechados
Sem duvidar do desejo de estar aprisionado
Revela o real do absoluto descompasso
amando a sensação de estar capturado
Subverte a fala (refém dos verbos)
Altera o protocolo (confunde os termos)
Se farta das letras de outra boca (não se traduz)
Mergulha num abismo que reluz
Seu foco é o outro olhar ( não se conduz)
Plana cegamente:apaixonado curumim
Cantando a música do sim

Ou ”Coração curumim”
(Suzana)

Fruto sagrado

Casca de noz.
Que quando quebra oferece a fruta que é o mais íntimo de si.
Casa de ostra.
Que vinda à luz ferida a faca ou pedra se oferece.
O interior é todo ele sagrado. É caroço da fruta. É coração de ostra.
O interior é todo ele centro. É o dentro de nós. É a casa do outro.
Ou... “Fruto sagrado”
(Suzana)

Foz


Me dispo daquela que fui antes e me ordeno andar
Desdobro as pernas alogando caminhos
Deixo recados nos portões
Neles conto a urgência que ontem foi presságio
Neles denuncio o intratável
O assombroso desenho sem traços do vazio
Depois me dispo das folhas e me ordeno escrever um poema no ar
Deixo os versos expostos no jardim
Vou descosturando as rimas entre os bancos espalhando as letras silenciosamente
Aguardo que sejam roubados sem vestígio
Neles ofereço a palavra senha descoberta
Aquela que trago içada da ponta esquerda do peito
Aquela que se debate em convulsão
Aquela que desmerece o leito ignorado
Aquela que festeja o rio
Depois rastreio o feito
Contradigo a sós
Permeio o novo
Encontro outra foz

(Suzana)

O X



O x da questão é que não há questão
Nem presságios, nem quebrantos
Não há cantos escuros nem muros
Não há furos no ar
O que existe é apenas um hiato que vira fenda
um intervalo onde levita a lenda do vir a ser
Devir
Não traga folhas escritas
Descarto os árabes enredos
Nem quero mistérios e arabescos que possivelmente existam na coleção
Não pretendo visitar lugares onde na certa existem contas de colares perdidas
Não invente cordas bambas
Tenho pés pequenos para estradas no ar
Nem me seduz a lúbrica cantata que cruelmente rouba o tempo
Azeda o vinho e mata a poesia do estar
Do revival silencioso de viagens traga postais
Porque de resto são passagens do apenas conhecido jamais
Escolho reais madrigais

(Suzana)

Avesso


Libertar a consciência límpida e transparente
sem que antes um impulso irresistível amordace e aprisione o pensamento.
Mergulhar profundo no coração do tudo
sem que antes um desejo sufocante se revele e embarace o envolvimento.
Desconstruir no ar as possíveis amarras.
Retirar dos olhos as prováveis vendas.
Antes que as correntes se façam fortes.
Não contar com a sorte e assinar a carta de tua própria alforria.
Permitir o peito descoberto.
Alojar o insólito.
Namorar o ilógico.
Germinar no nada.
E ser.

(suzana)



Olhos de borboleta


Embora as imagens me seduzam,
agrada-me sobretudo e antes
o leque fechado e sempre delicado
da pessoal e íntima paisagem.
Porque as imagens são dos olhos passageiras 
são flores de paineiras
o vento as leva.
Atrai-me antes o desenho raro
que existe em tudo o que não posso ver.
Suada romaria lenta
buscando a letra que não posso ler.
Prende-me o aroma da fruta além do muro.
Encanta-me o tanto a descobrir do escuro.

Ou... "Olhos de borboleta"

(Suzana)

sábado, 26 de março de 2011

Descompasso





Busco ultimamente “entender o sentimento”. Da paz de amar dentro do tempo. Tatuo a pele que tece a velha trama. Aquietar a chama. Equalizar o drama. Da partitura da emoção e entendimento. Se o racional gravita, o coração palpita. Meu desejo é afinar a escrita. Ajusto o meu latim ao tambor do xamã. Um dueto ancestral. Bato na forte delicadeza (como se a delicadeza fosse sincopal). Soa paradoxal. Explico que elas dançam juntas pelo teu quintal. E tocam na banda pessoal. Gravo ecos de gentileza. Faces de um blues artesanal. Esclareço que é desenho construído lentamente refletido no teu natural (como se a gentileza fosse um ritual). Registro uma ternura essencial. Sonora, gestual (como se a ternura fosse tribal). Fecho então o dicionário. Calo o tambor. Não sei pensar. Só sei compor.

Ou... Descompasso
(Suzana)


Partitura

"Atada em cordas de um instrumento invisível ressôo saudade. Caminho por acordes imprevistos. Deslizo em ecos transbordantes de risos. Reescrevo partituras de desejos. Para em seguida recompor teus beijos. Saio à cata de notas transversais.”
Desenhar poemas não tem a força de viver poemas. A alquimia de transformar pessoa em poesia inexiste. No teu caso. Porque as palavras nascem velhas diante da sempre nova e exata alegria. E desacatam a rima antes que se exprima. Polir o verso ao brilho da vida que acontece é salto de acrobata. Um golpe de esgrima. Porque a sensação retida é abstrata. E antes que esse verso salte e retrate a tua graça, já se mesclou em outro que a relata. E assim numa caçada a versar momentos vivos a aprendiz poetisa se curva e se descarta. Arrebatada. Traduzir o riso que surge entre os teus olhos? Teu sono aquietado? E o teu pensar profundo? Tua temperatura grata. Essa marcha libertária. E essa sonoridade da tua gargalhada. Que verso posso que seja afiançável? E que fiel revele o teu retrato.
Onde busco rimas? Onde capturo uma palavra que componha a tua realeza? Arrisco um tema, mas ele se intimida engolido pelo turbilhão da tua presença. Sou persistente e corro atrás dos teus silêncios. Neles me defronto com paisagens sempre intensas, caminhos esculpidos em roteiros transmutados, vôos milimetrados, rasantes calculados. Ressurreição! Como ousar teu intangível? A aprendiz poetisa cala a heroína. E troca a pena pelo olhar.

(Suzana)


Naufrágio da Paixão




Vou te contar como sinto o Naufrágio da Paixão. Esse doce trecho do cruzeiro da Sedução que se transforma em acidente de percurso do coração quando se entrega o comando do leme à ilusão e se parte a quilha da embarcação. Tudo começa pela leitura errada do mapa de navegação. Detalhes cruciais deletados pela fuga da razão. Que fazem acreditar que o sul é norte, e que ventanias é sinal de sorte. Tudo tem começo na falta de observação. Do tempo que adormece a emoção que acusa no painel: “baixa pressão”. Você não acredita que a frente fria seja capaz de cambar a travessia. Duvida dos faróis que alertam, se ilude com a calmaria.
Um dia você desperta com aviso de tempestade. E tenta no desespero um desvio de declinação. Procura teu salva-vidas na proa da intenção. Percebe que não possui um cabo de amarração. Conclui que está á deriva sem luzes de navegação. Velejar e amar tem pontos em comum: escolha do barco, cuidados, roteiro e previsão. Equilíbrio entre a aventura e o seguro cais. Delicioso aportar na paz. União de forças no enfrentamento de temporais. Um brinde no convés de um Caribe particular. E ainda que você esteja na preamar jamais se iluda. Nunca se esqueça de sondar a Lua.


"Naufrágio da Paixão"
(Suzana)

Nós




Palavras leves, gestos contidos, um plano, uma paralela, um passo!
Onde o desatino? Tomar um rumo num gole só.
Olhar o prumo da linha do horizonte.
Interromper o filme angustiante, película de tortura.
Me desatar do nó de marinheiro da loucura
que não faz nada além de me negar a cura.
Partir sem fardos, distribuir o peso do impossível,
me descartar das teias do ilusório.
Caminhar nua.
E processar com a máxima doçura o meu esperado ser.
A esperança é um desejo.
Podemos esperar o que não desejamos?
Ser argila e não se modelar?
Desfiar a fibra sempre em linha reta?
Segurar a língua e desviar a seta?
Ser manso e dominar a fera?
Dar a face e esperar o tapa?
Entregar o ouro e festejar miséria?
Levar o tombo e rir da queda?
Ser louco é fácil, o difícil é recriar a tela.


(Suzana)

Dieta da voz

Não quero o discurso vaidoso e intratável. Emprestado dos livros, saqueado da luz alheia. Ou fraudulento. Aquele pirateado. Desavergonhadamente subtraído. Não quero o discurso comprometido e atormentado dos teóricos, com referências no rodapé das frases, com bibliografias amontoadas sobre o raciocínio, onde o pensamento se agarra como bóia, ou craca em navio. Também descarto o discurso embalado em filosofias de botequim, que pulsa o desconexo de dentro, desembala o convexo, e se perde sem destino e fim. Uma espiral de intermináveis alusões. Roubo de tempo e energia preciosos. O diálogo ideal do homem é com a natureza. E a tradução do pensamento, se faz pelo desenho e escrita, pela música e pintura.
A arte do pensamento em palavra se reinventa há milênios, e está perpetuada nas paredes das cavernas e nas tábuas dos povos antigos, nos papiros egípcios: palavra eternamente cinzelada. Incontáveis horas dedicadas à construção das vias do entendimento. Portanto, ao discurso entrecortado de reticências vazias, espetáculo de mesmices que mascara o monólogo da vaidade, me atrai antes uma joaninha conversando com uma samambaia... um passarinho no trabalho do graveto no pau a pique do ninho... o som do vento numa noite de outono. Portanto, escolho o silencio.
Ou... “Dieta da voz”
(Suzana)

Por falar em amor



Nada se obriga ao amor. O amor é livre para decidir entrar em nossas vidas e depois arrumar as malas e partir. Numa manhã qualquer. Com ou sem motivo. E nós também somos livres para permitir que o amor entre em nossas vidas ainda que saibamos disso. Não devemos nos ater às promessas e planos feitos durante a permanência do amor em nossas vidas. Tudo é tão vago! Tudo é tão improvável. Tudo é tão frágil. O amor é imprevisível. Nada se obriga ao amor. De fato não há lei alguma que o obrigue a nada. Essa impermanência, essa primordial isenção, essa condicional, talvez esteja na própria alma do amor. Devemos, pois, apenas, saber hospedar o amor enquanto o amor estiver caminhando em nossas vidas. Sabendo que a qualquer momento ele fará as malas, e será inútil tentarmos esconder as chaves da porta. O amor se rebelará e nos enfrentará com suas garras e o seu olhar vermelho. O amor quando se sente aprisionado revela-se reverso.
Nada se obriga ao amor. O amor não suporta sentir-se emoldurado na parede. Talvez a eternidade do amor seja inerente ao próprio amor. Apenas. Senhor de sua própria trajetória o amor corteja a liberdade. Retê-lo além da hora é semear vazios. Ou ir à sua contramão. O amor se perseguido provocará uma colisão dolorosa. E se mostrará cruel. Sendo assim devemos entender que o amor não se compromissa e não se perpetua além de si, e do tempo em que é. Saber hospedar o amor com liberdade. Manter as portas destravadas. Festejar e agradecer sua presença. Nos render à sua mobilidade. Entender sua transitoriedade e independência. Aceitar sua imprevisibilidade. Saber recolher os frutos de sua passagem. Guardar as sementes. Esperar a chuva. Arar. Proteger o broto. E colher outra paisagem. Renovada. Inédita. Porque ao amor não se obriga nada.
 Ou: Por falar em amor
(Suzana)




Fragmento





Fragmento. Saiu com a urgência de um novo amante! Conhece? É bastante perceptível. É quando fatalmente se descuidam dos detalhes importantes e se atrapalham. E então, se denunciam. Em amadores flagrantes hilários, que geram desculpas absurdas, desconcertantes ou cômicas. Normalmente cômicas. É muito interessante conhecer.
Com uma visível urgência intolerante, e escudado por uma paciência miserável, não gastou tempo com despedidas reverenciadas que lhe retardassem a rua. Digo apenas que ansiava pela rua e economizou palavras. E ao economizar palavras deixou atrás de si um silencio delator. Apenas um detalhe. Quando fechou a porta imediatamente viu-se cara a cara no espelho do elevador. Ansiedade e vaidade. Térreo olhar. Ele já vinha em manobras de retirada. Vinha perdendo o compasso entre o indisfarçado caminho novo, e o que pretendia manter. Aquele desespero fantasiado de cansaço, segredos travestidos. Alguma culpa talvez.
Tropeçando no fio da civilidade, se esquecendo, por exemplo, de desejar “bom dia”. Perdendo ostensivamente tratos que compõem o cardápio delicado da convivência. Imprescindíveis gestos. Diálogos do olhar. Já percebeu que quando a sintonia vibra falamos juntos e que quando falamos juntos nasce uma sensação boa? É quase uma brincadeira! Perdera-se. Imaginava que seus movimentos passassem despercebidos, ou que poderia indefinidamente blefar com suas cartas marcadas, e que jamais seria desmascarado. Porque os novos amantes se julgam revestidos por certa indestrutibilidade. Invencibilidade. Vivia todo atrapalhado em sua agenda de amanhãs. Semeando aqui e ali seus elos mercenários, descartando-os no primeiro sinal, na primeira foto, que pudessem estampar e colocar em risco o seu manejo. O seu estilo.
Sabia caminhar com natural desenvoltura em novos mercados e estava conseguindo plantar impressões delicadas com sua fragilidade artificial. O problema é que o seu produto teve, tem e sempre terá: prazo de validade. Na verdade atuava bem, se você concordar que existem seres que são mestres no ofício da ilusão, e se você concordar que sempre haverá seres ávidos de ilusão. Oferta x demanda. É inegável que sempre soube onde aplicar seus recursos ilusórios, identificando com precisão nichos e possibilidades de retorno. 
Conto a história com voz magoada.
Reflexão...
É muito pessoal todo esse foco. Mas é questão apenas de linguagem; se você concordar que toda história foi contada por uma voz que tinha uma leitura daquela história. E a leitura é sempre pessoal. Posso contar a história diferente. Com outra voz. E com outra voz criar uma nova história. Apenas um detalhe do foco.

Vídeo - A mulher invisível

Rimas em férias



Entre linhas caminho displicente sem reter a língua.
Deixo que as palavras tirem férias.
Tiro conselhos da manga. Empresto guarda sol e canga.
Sugiro que desçam a serra e encontrem bromélias, que procurem seixos, que descubram veleiros, que conversem com mangues e se deixem dourar.
Que não usem de rede nem de arpão. Que não pesquem fora da estação.
Que reservem sempre ao coração a decisão do sim, do não. Que não contem o tempo pela lua nem pelo sol que nasce todo dia, porque a medida certa é sempre aquela que deixa o tempo com outra tessitura.
Que desafiem sempre que possível o que parece próximo do insondável, e se permitam vagabundear em outra arquitetura.
 Pelas tardes, pelas pedras, pelos diques e verdades.
Que não se esqueçam de destacar do todo o bom detalhe e não se percam no caos que anda aos bandos.
Que se protejam de vigílias e mormaços, que evitem o pulsar descompassado que costuma atordoar os bardos.
Que se alimentem na franja do horizonte e que renasçam na linha do retorno.

Ou: Rimas em férias
(Suzana)

Vídeo - Planeta Terra

sexta-feira, 25 de março de 2011

Chave perdida







Fica assim o trato feito: esquecer o estrago do descaso.
Não reter a lágrima noturna e deixar molhar o travesseiro.
Acordar achando a senha do perdão e não cobrar migalhas!
Nem esculpir sombrios entalhes
ou colocar nos porta-retratos cicatrizes e detalhes.
Fica assim o trato feito: esquecer o estrago do absurdo.
Ainda que profundo e oceânico.

Não temos tempo a gastar pintando a porta com o sinal do não!

Ou... "Chave perdida"

(Suzana)

Patético






Junto todas as fotografias num saco de supermercado e te devolvo. (Anexo inclusive “os negativos”.) Do desencontro. Do descaso. Dos motivos. Num envelope à parte estão os das “mutretas”. Não quero por-de-sóis guardados em gavetas. Não faço nada com sorrisos velhos. Nem suporto as paisagens desbotadas de incertezas. Não quero também os bilhetes nos guardanapos. Nem os versos rabiscados em maços de cigarro. Ou as pétalas de rosa aroma de aguardado. As rolhas dos vinhos, podem ir pro lixo. Cartões de amor eterno? Vencidos. Não vou ser relicário, nem cofre, nem sacrário. Não vou inflacionar o meu armário. Nem vou cristalizar meu calendário. Aliás... por gentileza, devolva o que for meu. Arranje um emissário.


 Ou..." Ser patético é um saco"

(Suzana)

Vida de Vento



Podemos apagar os endereços. E da varanda tentar um arremesso. Num “ponta pé a lua” transformar o chão em trampolim. E emergir do salto num solo ritmado de banjos. Uma aventura bem ao gosto dos anjos. Curar as asas quebradas, selar as velas rasgadas. Aventurar roteiros marginais. Reconquistar a nômade soberania de estar em todo o tempo de cada lugar. Reaprender com o vento a prometer aragens, a destelhar impasses, a arejar capuzes. Acompanhar o vento na corrida das nuvens, aterrizar com o vento nos mananciais. Reinventar a caravana mágica de estar no tempo de todo lugar. Chavear a parceria com novos andares. Levar o teto a conhecer as ventanias. Levar a porta a atender novos pensares que soam dentro de cada companhia. Podemos alugar o vento como moradia.

Ou... "Vida de vento"

(Suzana)

Ombro







Azul

Filme










Minha história passa por pontes paradas no ar. Por noites de passos polares, por ganchos de redes, por mares bravios. Passa pela bruta tempestade que desvia os bons navios. Minha história passa. Passa por ladeiras e segredos, bonecas e medos, por esconderijo no porão. Passa pela clara suspeita de que eu enfrentaria os rios. Passa pelo livro proibido, passa pelo olhar indefinido que passa pela pergunta estacionada na garganta e se reflete no espantado rosto da resposta. Passa pela fuga, passa pela prece da primeira confissão que passa pelo azul de abril. Minha história passa. Passa pelo ranço tribal que valida e amordaça que passa pelo rito repetido que consolida a imagem do equívoco. Passa por mesas de domingo, passa por teatro e por famílias, passa pela sólida costura que preserva o elo das matilhas.
Passa por encruzilhadas e vazios, passa por mandalas e velas, por trevos e margaridas desfeitas. Passa pelo bem me quer, passa pelo mal querer. Passa por luzes em sacadas, por amores sem nome que passam por abandonos sem aviso e estações. Minha história passa por eixos suspensos no ar. Por trechos em trens, por velhos vagões que passam por trilhos descobertos no susto do anoitecer. Passa pelo traço concebido pela matriz e passa pela notícia que contradiz. Passa pelo disfarce, passa pela desculpa, passa pela promessa que passa pela coragem de não permitir que nada passe sem memória em mim.
Ou... Filme
(Suzana)